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Europa

JA25.1.J.A.retrato mochilaDurante o curso de fotografia que fiz nos Estados Unidos, no contato com os colegas que voltavam às aulas depois das férias de verão, fiquei sabendo das suas viagens de carona pela Europa: “The grand Tri-X tour”, como chamavam essas aventuras fartamente registradas e a baixo custo, usando a versão rebobinada do mais famoso e querido filme preto e branco da Kodak, o Tri-X.

Esse tipo de viagem era tão comum entre estudantes americanos e europeus de ambos os sexos naquela época que, concluído o meu curso, resolvi me dar de presente aquela oportunidade única de fotografar a Europa, viajando dessa forma. Assim, munido de mochila, saco de dormir, muitas latas de filme, guia de estudantes e mapa das estradas europeias, saí de Syracuse de carona para Nova York no mesmo dia em que entreguei a versão final da minha tese de mestrado, já defendida, com as correções exigidas pela escola.

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Barcelona

Depois de exaustiva pesquisa de tarifas em todas as companhias aéreas, voei pela KLM diretamente para a Holanda, chegando em Amsterdam no dia 27 de maio de 1972, tendo recentemente completado meus 28 anos.  A passagem, tarifa estudante Nova York – Amsterdam – Nova York, tinha me custado 200 dólares, restando-me apenas 100 dólares para ver o que pudesse da Europa. O pouco dinheiro eu teria que fazer render o máximo, pois tempo eu tinha para esbanjar: um ano!

Optei por um roteiro que priorizasse os países latinos mais ao sul da Europa, de onde eu subiria para a Holanda para tomar o avião de volta aos Estados Unidos onde estavam a minha bagagem e o bilhe-te aéreo de retorno ao Brasil.

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Cannes - França

Consegui visitar 12 países em um ano de viagem: Holanda, Bélgica, França, Espanha, Portugal, Andorra, Itália, Grécia, Turquia, Iugoslávia, Áustria e Alemanha.  

Como ver tanto com tão pouco? As dicas do guia que levava e a troca de informações com outros mochileiros, assim como ideias minhas resultantes da necessidade, me fizeram eliminar ou reduzir os gastos principais de uma viagem: hospedagem, alimentação e transporte. Meu “hotel” era o saco de dormir, utilizado em praças e parques, em baixo de pontes, prédios em construção, campos, florestas e até túmulos! Meu alimento era pão com margarina, enlatados baratos, frutas machucadas de fim de feira, além de macarrão, sopas, batatas, ovos e chá, preparados num pequeno fogareiro a álcool.

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Paris

E o transporte, por cerca de 21.500 quilômetros, foi todo de carona em automóveis, caminhões, triciclos, motocicletas, e até um barco, além de alguns percursos a pé. Complementei os 100 dólares, com que desembarquei na Holanda, com ajuda da família e trabalhando por 40 dias nas colheitas de uvas na França.

Além do encanto de vivenciar a Europa, meu interesse principal era fotografar, o que fiz sem poupar filme: foram cerca de 6.000 fotografias feitas com minha Nikkormat munida de duas objetivas: uma grande angular de 28mm – usada em quase todas as fotos – e uma tele de 135mm. Fiz ainda cerca de 2.000 slides coloridos, usando a velha Olympus Pen, minha primeira câmera.

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Veneza

Veneza, 1973

Essa é uma das fotos de que mais gostei dentre as oito mil que fiz no ano que passei viajando pela Europa.  Dentre as cidades que visitei, Veneza é a mais surpreendente. Parece irreal. Por incrível que pareça, me lembrou Disneylandia! Difícil não ter o casario, a água e os barcos como assunto das fotos feitas por lá.

Quanto a essa foto, posso tentar analisar  porque me agrada de maneira especial.  Em primeiro lugar, é uma foto “quente”, como dizia o mestre Chico Albuquerque, isso é, trata-se de foto de gente que é o assunto que mais interessa a toda a gente. Mas é interessante observar como estão posicionadas, na cena, as figuras humanas. Estão quase todas de roupas escuras  contra o fundo claro do brilho da água, no segundo plano da foto. O olho do observador entra na foto da esquerda para a direita que é o sentido natural da leitura na maior parte do nosso mundo ocidental. O olho segue qualquer uma das linhas de perspectiva que o levam para um ponto de fuga que está fora da área da foto: a linha do telhado e das janelas dos prédios, a linha do nível da água, as linhas laterais do barco, a ilusão de profundidade no espaço plano da foto gerada pelo tamanho relativo dos corpos das pessoas na medida em que se distanciam da câmara, (uma Nikon reflex equipada com uma objetiva grande angular de 28mm.). Essa “entrada” na foto, feita pelo olho do observador, é também ajudada pela posição da primeira figura humana na margem esquerda da foto, que está com o rosto voltado para a direita. Enquanto isso, na margem direita da foto, o olho não foge da cena pois é rebatido pela presença do barqueiro, voltado para o lado esquerdo.

O olho é rebatido também pelo movimento da lancha que vem da direita para a esquerda. Embora apareçam oito pessoas e duas delas estejam aparentemente olhando para a lente da câmara, o ponto de interesse  inequívoco da foto é a mulher idosa no ato de desembarcar.  Tudo leva o olho do observador a essa figura: ela é a única que está em movimento, seu corpo ocupa o centro da foto estando sua cabeça de cabelos brancos  quase que no meio do retângulo. Sua posição está marcada pela presença de  estacas  posicionadas simetricamente dos dois lados do seu corpo, reforçando a atenção sobre si. Ao parar a vista sobre sua cabeça, o observador procura em vão o contato com seus olhos  mas percebe que os mesmos estão escondidos pela armação dos óculos. Fica difícil determinar se ela estaria olhando para a lente da câmara ou para o degrau da escada que acabou de pisar… Para mim, essa foto segue a tradição do estilo Cartier Bresson, a foto feita no “momento decisivo” da ação. Quando se consegue captar esse momento numa cena cujos outros elementos não atrapalham a ação mas, ao contrario, ajudam a fixar a atenção criando um todo harmonioso, tem-se uma “grande” foto, um raro prazer. Cito o mestre Bresson: “Mas, para mim, a única e verdadeira alegria  esta´ nesse gozo físico, essa luta com o tempo, essa necessidade angustiante de reunir na mesma linha de mira, o olho, a cabeça e o coração”.

Essa fotografia participou da exposição coletiva mundial de fotografias dos lugares que compõem o patrimônio cultural da humanidade, (no caso a cidade de Veneza), organizada pela UNESCO em 1998.

One comment

  1. Ola , primeiro quero dizer que adoro seu trabalho e sua experiencia na area de fotografia, como comecou sua carreira e tudo mais !
    Bom meu nome ‘e Fernanda e estou atualmente estudando fotografia na Australia e gostaria muito de entrar em contato com voce, via e-mail !!
    Bom, meu e-mail : nandavn.aus@hotmail.com .

    Parabens pois logo estara completando 41 anos de carreira !



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